Go Cup cobra R$ 800 para credenciar olheiros e gera revolta no futebol de base; clubes avaliam boicote

A organização da Go Cup, competição de futebol de base que acontecerá em Aparecida de Goiânia (GO), entre os dias 28 de março e 4 de abril de 2026, está cobrando valores que podem chegar a R$ 2.000 para o público geral ter acesso ao evento. Já para observadores técnicos, os populares olheiros de clubes, a taxa de credenciamento gira em torno de R$ 800, segundo apuração do Portal Brazuca.
A cobrança gerou forte revolta entre profissionais do scouting no futebol de base e já provocou discussões nos bastidores de clubes sobre a possibilidade de boicote à competição.
Observadores técnicos ouvidos pela reportagem afirmam que a medida é incomum dentro do futebol de base brasileiro, onde tradicionalmente esses profissionais têm acesso livre às competições justamente por exercerem o papel de identificar e acompanhar jovens talentos. Em alguns eventos, os observadores têm sala exclusiva e tratamento especial.
“Uma das coisas que eu não vejo sentido é pelo fator marketing. Toda competição acaba usando nossa imagem para fortalecer o evento. Sempre tem uma foto com um tanto de observador para impulsionar. Para isso, somos parceiros. É, no mínimo, estranho”, afirmou um scout ouvido pela reportagem, que pediu para não ter a identidade revelada.
Outro profissional também questionou a lógica da cobrança.
“Já pensou se médico, árbitro e outros profissionais que fazem parte do espetáculo também tiverem que pagar?”, disse.
A estimativa é que mais de 50 observadores técnicos circulem pela competição ao longo do evento, representando clubes de diferentes regiões do país.
Boicote como resposta
A repercussão da cobrança também chegou aos bastidores dos clubes.
Dirigentes ouvidos pelo Portal Brazuca revelaram que já existem conversas internas sobre a possibilidade de boicote à competição.
Qualquer decisão desse tipo, no entanto, depende diretamente das lideranças das categorias de base, como coordenadores, gerentes e diretores de futebol de base de cada clube.
Mesmo assim, alguns clubes já sinalizam que podem optar por não participar da competição. Outras agremiações sinalizam que vão dar sequência à programação prevista no calendário e, se a cobrança permanecer para 2027, o envolvimento na competição será revisto.
Entre as iniciativas discutidas está também a possibilidade de observadores comparecerem ao evento sem utilizar o uniforme oficial de seus clubes.
A ideia seria evitar que a imagem institucional das equipes seja utilizada na divulgação da competição.
Nos bastidores do futebol de base, há o entendimento de que a presença de observadores e clubes valoriza o evento, já que muitas famílias enxergam a presença desses profissionais como sinal de oportunidade para os jovens atletas.
Reclamações de pais
A cobrança também tem gerado reclamações entre familiares de jogadores.
A redação do Portal Brazuca recebe com frequência relatos de pais sobre os altos custos envolvidos na participação em grandes torneios de futebol de base, que incluem inscrição, deslocamento, hospedagem e logística das equipes.
Em alguns casos, o valor cobrado para acesso ao evento também tem sido alvo de críticas.
“Infelizmente, meu filho não vai jogar a Go Cup esse ano. É um absurdo cobrar R$2 mil por pessoa. A gente ganha um salário mínimo. Como vou ver meu filho? Se eu for, meu marido não vai. É como se fosse uma venda casada. Ministério Público deveria investigar”, afirmou Ana Luisa Silva, mãe de um atleta de 12 anos.
O que diz a organização
Procurada pela reportagem, a organização da Go Cup afirmou que existem diferentes modalidades de acesso ao evento, inclusive para profissionais de captação de atletas.
Segundo a organização, equipes que participam da competição podem levar membros de sua comissão técnica sem custo extra, incluindo captadores vinculados a essas equipes.
Ainda de acordo com os organizadores, para profissionais ligados a clubes que não participam da competição, existem modalidades de acesso com valores diferenciados.
Nota do editor
O futebol de base brasileiro sempre foi construído a partir de uma rede ampla e diversa de profissionais e instituições que trabalham diariamente pela formação de novos talentos.
Nesse contexto, os observadores técnicos desempenham um papel fundamental, sendo responsáveis por identificar atletas, conectar oportunidades e contribuir diretamente para o desenvolvimento do futebol.
O Portal Brazuca entende que essa categoria precisa ser tratada com respeito, reconhecimento e valorização, considerando a relevância de seu trabalho dentro do ecossistema da base.
Cobrar qualquer tipo de valor para o exercício dessa atividade em competições ou estabelecer condições diferentes de acesso de acordo com o tamanho ou o peso institucional de determinados clubes vai na contramão do fortalecimento do futebol de base.
A formação de atletas no Brasil acontece graças a um sistema que envolve todos os níveis de escudos: desde as escolinhas de bairro, passando por clubes de pequeno e médio porte, até chegar às grandes instituições do futebol nacional e internacional.
Cada uma dessas estruturas cumpre um papel essencial dentro da cadeia de desenvolvimento do atleta.
Valorizar esse ecossistema, respeitar seus profissionais e preservar um ambiente acessível e colaborativo são princípios fundamentais para que o futebol de base continue sendo um espaço de formação, oportunidade e descoberta de talentos.
O Portal Brazuca seguirá acompanhando o caso.








