Treinador aplica método de Flamengo e Botafogo e se destaca à frente do sub-20 do América-PE

Abrahão Félix dos Santos Junior nasceu em Olinda, Pernambuco, e cresceu com o futebol como linguagem. Mas não foi como jogador que ele encontrou seu lugar. Foi na beira do campo, com prancheta na mão e olhar atento ao coletivo, que sua identidade profissional tomou forma. Hoje, aos 37 anos, ele é treinador da categoria sub-20 do América-PE, um clube com história sólida no futebol pernambucano.
O caminho até aqui foi construído sobre escolhas claras. Abrahão decidiu cedo que queria trabalhar com formação, não com o espetáculo do profissional. Essa escolha tem nome e razão: a crença de que é na base que se molda não apenas o atleta, mas o ser humano.
“Minha ideologia veio do meu pai”, ele revela. A influência paterna não é apenas sentimental. Ela é estrutural. É o alicerce de uma visão de mundo que Abrahão carrega até o campo de treinamento todos os dias, e que aparece no modo como ele se relaciona com cada jovem que passa pelo seu trabalho.
FORMAÇÃO SÓLIDA, MÉTODO CONSTRUÍDO
Abrahão não chegou ao trabalho no América-PE por acaso ou improviso. Ele chegou preparado. Licenciado em Educação Física, com pós-graduação em Futebol e Futsal, e detentor das Licenças C e B da CBF Academy, ele tem uma base acadêmica e técnica que sustenta suas decisões metodológicas. Além disso, realizou estágio no Botafogo Futebol e Regatas, experiência que ele considera fundamental em sua evolução como treinador.
O contato com a estrutura e a cultura de um clube de maior porte ampliou sua leitura do jogo e dos processos de formação. Hoje, ele tem a “periodização tática” como principal abordagem metodológica.
Abrahão prioriza agressividade posicional, equilíbrio defensivo, transição rápida, compactação e pressão ao portador da bola. Um futebol dinâmico, ofensivo e posturado, como ele mesmo define. Nada de improviso. Nada de genérico.

PDI: O TREINO QUE RESPEITA CADA ATLETA
Um dos elementos mais concretos do trabalho de Abrahão no América-PE é o Programa de Desenvolvimento Individual – PDI, que ele absorveu na passagem pelo futebol carioca ao estudar clubes como o Flamengo e Botafogo. Trata-se de um dia específico na semana dedicado exclusivamente ao desenvolvimento de cada atleta, considerando suas virtudes e suas dificuldades de forma personalizada.
“Nós trabalhamos e desenvolvemos cada atleta visando suas virtudes e dificuldades”, explica. No restante da semana, o coletivo avança com feedbacks contínuos. A combinação entre atenção individual e evolução do grupo é o que ele chama de equilíbrio real entre técnica e tática.
Abrahão não enxerga os atletas como peças de um sistema. Ele os enxerga como indivíduos com histórias, limitações e potenciais distintos. E é esse olhar que dá profundidade ao seu trabalho.
VERDADE, EMPATIA E LIMITES BEM ESTABELECIDOS
Como Abrahão estabelece confiança com jovens atletas sem perder a autoridade necessária? A resposta é direta: tratando cada um com verdade e empatia, sem perder de vista que cada indivíduo é diferente do outro.
Ele não romantiza a relação treinador-atleta. Sabe que ela começa harmoniosa, mas que pode travar quando os espaços não estão claros. “É fundamental que cada um saiba o seu espaço sem interferir no espaço do outro”, afirma, estendendo essa lógica também à relação com as famílias. Para ele, quando essa fronteira é respeitada, o ambiente funciona. Quando não é, trava.
Quando um atleta enfrenta barreiras fora do campo, família desestruturada, dificuldade financeira ou saúde mental comprometida, Abrahão aciona uma rede. “Entramos em contato com o clube e iniciamos um processo multidisciplinar envolvendo assistente social, psicólogo e toda a rede de apoio que o atleta precisar.” Futebol, para ele, não começa e termina no gramado.
O QUE SEPARA QUEM CHEGA DE QUEM NÃO CHEGA
Perguntado sobre o que distingue um atleta que alcança o profissional de outro com talento equivalente que fica pelo caminho, Abrahão é preciso. Além da técnica e do cognitivo, ele precisa entender que cada detalhe no meio do futebol faz diferença, e é necessário levar a sério.
Essa percepção vem de anos observando jovens. O talento bruto, isolado, não basta. O que faz a diferença é a consciência do ambiente, a seriedade com o processo, a capacidade de absorver informação e transformá-la em atitude dentro e fora do campo.
E sobre preparar o atleta para a vida além do futebol, Abrahão não tem dúvida sobre seu papel. “O percentual de atletas que chegam ao profissional é muito baixo. Sabendo disso, além de direcionarmos os indivíduos a se desenvolverem como atletas, precisamos fazer com que eles entendam que existe vida além do futebol.”

TRÊS TEMPORADAS, UM PADRÃO DE CONSISTÊNCIA
O vice-campeonato pernambucano de 2024 pelo sub-17 do América-PE é a conquista mais visível dele até aqui. Mas o que Abrahão destaca com mais orgulho é algo mais difícil de contabilizar em troféu.
Desde que chegou ao clube, ele e seu grupo não perderam uma partida sequer para equipes intermediárias, aquelas que não estão entre os quatro grandes do estado: Retrô, Santa Cruz/PE, Náutico e Sport. Três temporadas inteiras sem essa derrota. Um padrão que exige consistência muito maior do que um título pontual.
Outro dado que chama atenção é a sequência de 15 jogos sem derrota no Estádio Grito da República, casa do América-PE. A hegemonia só foi interrompida na semifinal do Campeonato Pernambucano, diante do Santa Cruz. O aproveitamento geral: 60% de vitórias, 30% de derrotas e 10% de empates.
Abrahão também contabiliza oito atletas revelados ao profissional e destaca com satisfação o nome de Isac, artilheiro da Copa Pernambuco no ano passado e autor de cinco gols na temporada atual. “Considero um atleta promissor”, diz, com a cautela de quem sabe que revelar não é garantir, mas abrir caminho.
No campo institucional, um dos legados que ele mais valoriza é a implantação da metodologia atual nas categorias de base do América-PE. Uma construção que não aparece em manchete, mas que orienta o trabalho diário de toda a estrutura formativa do clube.
O QUE ELE QUER QUE LEMBREM
Daqui a dez anos, Abrahão Félix quer ser lembrado por um futebol dinâmico, ofensivo e posturado. Quer ser lembrado como um treinador de caráter e honesto.
Em um ambiente onde resultados apagam trajetórias e pressão distorce prioridades, insistir em caráter e honestidade como marcas de legado é uma escolha política. É dizer que o como importa tanto quanto o quê.
Abrahão perdeu sua mãe cedo. Essa perda, segundo ele mesmo, ensinou resiliência. E a resiliência, no seu caso, não é apenas capacidade de suportar. É capacidade de manter o foco no essencial quando o imediatismo ao redor grita mais alto.
Ele chegou ao futebol pela ideologia de seu pai. Quer deixar para os atletas que passa a certeza de que existe vida além do futebol. E quer que o trabalho fale mais alto do que qualquer discurso.
FICHA DO TREINADOR
Nome completo: Abrahão Félix dos Santos Junior
Idade: 37 anos
Natural de: Olinda/PE
Clube atual: América-PE (sub-20)
Formação: Licenciatura Plena em Educação Física | Pós-graduação em Futebol e Futsal
Licenças: Licença C e Licença B (CBF Academy)
Aproveitamento geral: 60% vitórias | 30% derrotas | 10% empates
Atletas revelados: 8
Principal conquista: Vice-campeonato Pernambucano sub-17 (2024)








