Ex-Corinthians, Duda Abreu dribla preconceito e vive sonho atuando nos EUA

Nos dias 21 e 22 de setembro, Maria Eduarda de Abreu Mendonça Santos entrou em campo como titular na Flórida e só saiu com o apito final. Foram os dois primeiros jogos da temporada pela RPS Academy, amistosos em que as atletas do clube atuaram pela equipe sub-17 do Palm Beach Gardens, com o Orlando Pride entre os adversários. Na arquibancada, nenhum rosto conhecido. A família estava no Brasil.

“Foi uma experiência boa, nível de competitividade bom. Eu fiquei tranquila, entrei em campo focada”, conta.

Para quem passou a infância do lado de fora do campo, a cena carrega um contraste. Duda Abreu, como é conhecida, cresceu acompanhando os pais nos treinos de futsal do irmão. A bola chegou cedo, na escolinha Chute Inicial, do Corinthians/SP, e com ela vieram os primeiros sinais de que o caminho de uma menina no futebol seria mais estreito.

Foto: Reprodução/ RPS Soccer

No condomínio, os meninos às vezes não a deixavam jogar. Quando ela entrava, a resistência diminuía, porque logo percebiam que sabia o que fazer com a bola. Nas competições disputadas ao lado dos garotos, o obstáculo vinha da arquibancada. Pais da torcida adversária pediam aos filhos que não a deixassem passar e os incentivavam a caçá-la em quadra, incomodados com o fato de uma menina levar a melhor.

“Alguns momentos foram difíceis em relação ao ambiente, que por muitas vezes me excluía pela forma e estilo que tenho como menina. Porém nunca pensei em desistir, pois sempre acreditei no meu potencial e no meu sonho de me tornar uma atleta de futebol profissional de destaque”, afirma.

A formação ganhou corpo no Centro Olímpico/SP, onde chegou aos nove anos depois de uma peneira com cerca de 70 meninas, na qual ela e outras cinco foram aprovadas. Ficou até os 13.

Em paralelo, o futsal do Santo André/SP, a convite do técnico Marcelinho, ampliou o repertório e rendeu o título da liga de futsal sub-10. Vieram depois o Festival Paulista Sub-14 e, já pelo Corinthians, o Campeonato Paulista Sub-15 de 2024, a conquista que ela aponta como a mais significativa até aqui.

O futebol atravessa a família. O pai jogou até o sub-17 do Corinthians, um tio foi atleta profissional, o avô materno jogou na várzea e o avô paterno, já falecido, foi árbitro de futebol profissional. O irmão, a primeira inspiração dela, é hoje jogador profissional do Ituano/SP e segue no sub-20 até o fim da temporada.

Foto: Arquivo Pessoal

A rota para os Estados Unidos se abriu depois da saída do Corinthians. O psicólogo esportivo Mateus Louro falou dela a Pedro Marinho, da ID Sports, empresa de intercâmbio, e os vídeos chegaram ao treinador Blake, do FC Wichita, no Kansas.

Os pais participaram de cada etapa, da primeira visita para conhecer o clube, a escola e a estrutura até a mudança definitiva. Duda foi morar no dormitório da escola e enfrentou de uma vez o idioma, a alimentação e uma cultura que ela descreve como genuinamente americana.

Ao fim da primeira temporada, durante as férias no Brasil, a família conheceu o projeto da RPS Academy e decidiu seguir por ele. O contrato vale de maio de 2026 a maio de 2028.

Na Flórida, ela encontrou campos de grama natural, academia, estrutura de recuperação e comissão técnica completa, além de um ambiente com traços mais latinos e de um inglês que já flui com mais facilidade.

A diferença de modelo aparece no gramado. “Intensidade, velocidade, força e disciplina tática das americanas são realmente diferentes. No Brasil temos qualidade técnica, improviso, habilidade, mas aqui tudo é programado”, compara.

Foto: Arquivo Pessoal

A rotina segue a mesma lógica, com escola pela manhã, academia no início da tarde, campo no fim do dia e recolhimento cedo. A leitura bíblica e a oração fazem parte da preparação mental.

Ela observa também que, no país, as meninas começam a jogar ainda pequenas, dentro das escolas, e convivem com mulheres de várias gerações que praticaram a modalidade, incluindo ex-atletas campeãs e medalhistas olímpicas que hoje trabalham na formação.

Para quem precisou disputar espaço no condomínio, a mudança de cenário é evidente. “Aqui o futebol feminino é genuinamente para mulheres, totalmente isento de qualquer forma de preconceito”, diz.

Destra, com 1,57m e camisa 11 no Brasil, Duda atua pela ponta esquerda e pode jogar como lateral. Define o próprio jogo como intenso, de quem ocupa o corredor inteiro, ataca, defende e vai para cima.

Na ponta, estuda Neymar pela coragem e pela habilidade. Na lateral, observa Tamires pelos cruzamentos e pela visão de jogo. De Cristiano Ronaldo, leva o comprometimento.

Foto: Reprodução/ RPS Soccer

A avaliação da estreia mostra que ela sabe onde precisa crescer. Nos dois amistosos, ainda não marcou nem deu assistência. “O que foi bom acho que foi a coragem para ir pra cima, driblar e mostrar meu jogo. Porém acho que faltou eficiência para fazer gols”, reconhece. A eficiência no último terço do campo é justamente o ponto que ela escolheu como prioridade de evolução.

O ano de 2028 concentra os dois prazos da etapa atual. É quando termina o contrato com a RPS Academy e quando ela conclui o high school, com o objetivo de seguir para uma universidade da primeira divisão do futebol americano.

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