Goleiro entra no futebol como solução contra o celular e hoje sonha alto no Santos

O Santos/SP saiu na frente nas oitavas de final do Campeonato Paulista Sub-12. Jogando fora de casa, venceu o Primeira Camisa/SP por 3 a 0 na partida de ida e não foi vazado com Itallo Vanzella no gol. A decisão da vaga fica para o jogo de volta.

O resultado é mais um capítulo de uma trajetória que começou com uma mudança de vida. Itallo do Espírito Santo Vanzella, hoje com 12 anos, nasceu em Bonito, no interior de Mato Grosso do Sul, e chegou a Santos num ônibus, com duas malas, ao lado da mãe e dos irmãos. Ela deixou tudo para trás no início, e a família inteira se mobilizou para que o sonho do goleiro pudesse acontecer.

A entrada no futebol nem tinha relação direta com a bola. A mãe percebeu que o filho passava tempo demais no celular e o matriculou num projeto social da Prefeitura de Bonito, só para ocupar melhor a rotina.

Em 15 dias ele foi chamado para a Associação Gol Bonito, onde treinou sob o comando de Admir, que atuou por quatro anos no Bayern de Munique. Em cerca de oito meses, passou por cinco avaliações e foi aprovado em todas, Fluminense, Internacional, Bahia, Azuriz e Santos.

Itallo e irmão defendem base do Santos. Foto: Lenita Rodrigues

O caminho até o Santos teve um episódio específico. Em 2023, num campeonato disputado em Miranda, também em Mato Grosso do Sul, Itallo foi observado por Nenê Berlamindo, que jogou ao lado de Pelé e hoje trabalha como olheiro do clube, e pelo captador Ketson Aguiar. A atuação rendeu o convite para a avaliação que o levou à Vila.

A adaptação não foi simples. Cerca de um mês depois de chegar, há aproximadamente dois anos e meio, ele passou a duvidar do próprio potencial ao perceber o quanto os colegas já eram desenvolvidos tecnicamente.

“Isso me fez sentir inferior por um período, mas também me fez trabalhar muito mais”, afirma, creditando aos treinadores parte da virada. No caminho, foi emprestado ao Gremetal Futsal, onde, sob o comando do treinador Siro, conquistou um título paulista e, segundo ele, encontrou a confiança para competir.

Em 2024, enfrentou um período difícil, com a separação dos pais e resistência de alguns colegas dentro do grupo. “Foi um momento em que pensei em desistir e precisei ser muito forte emocionalmente”, conta, atribuindo a superação ao apoio da mãe e de pessoas do clube.

BOM MOMENTO

Na temporada atual, além da vitória na ida das oitavas, Itallo relata uma sequência de sete jogos como titular sem sofrer gols no Paulista, marca que atribui ao trabalho coletivo da equipe. Também aprendeu com o contrário.

No primeiro jogo do ano, sofreu um gol numa bola que passou entre as pernas. “Um goleiro precisa ter memória curta, aprender com o erro, levantar a cabeça e estar preparado para a próxima bola”, resume.

Itallo Vanzella vem se destacando no Paulista Sub-12. Foto: Lenita Rodrigues

A bagagem de 2025 sustenta a confiança. Foram os títulos da Copa Santa Cruz e da Copa Buh, ambos pelo sub-11. A Copa Santa Cruz tem peso maior para ele, porque veio depois de uma lesão.

Na Copa Buh, foi eleito goleiro destaque em quatro oportunidades. Hoje conta com o patrocínio da Unique, marca de luvas do senhor Everaldo, e segue sem empresário.

A rotina ajuda a explicar a evolução. Itallo acorda às 6h30, reza antes de sair de casa, estuda das 7h20 ao meio-dia e treina à tarde, além do treinamento específico de goleiros às terças-feiras.

Aos domingos vai à missa, às quartas participa da catequese, e em alguns dias joga videogame com os amigos antes de dormir, por volta das 22h. Cursa o 7º ano e mantém boas notas.

A família segue como base. A mãe acompanha o dia a dia de perto, o pai apoia financeiramente à distância, já que não pôde se mudar, e a irmã ajuda nas redes sociais. O irmão caçula, Pedro Vitor, também faz parte da base do Santos e se inspira no caminho aberto por Itallo.

Dentro de campo, a referência é o alemão Manuel Neuer, pela qualidade com os pés e pela forma de participar do jogo além das defesas. No dia a dia, observa também Gabriel Brazão, do Santos.

Sobre o próprio estilo, descreve um desligamento total do que está ao redor assim que a bola rola. “Em campo me desligo de tudo em volta, é como se fosse uma tomada, ligo e fico só no jogo”, diz, apontando agilidade e velocidade como pontos fortes e o jogo com os pés como o principal aspecto a evoluir.

O objetivo imediato é ajudar o Santos/SP a buscar o título do Campeonato Paulista Sub-12. Mais adiante, o sonho é vestir a camisa da seleção brasileira.

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