Quem é Miguel Jappe, o atacante do Inter que fez mais de 80 gols entre 2025 e 2026?

Uma vez por mês, a rotina de Miguel Jappe incluía uma viagem de 400 km. Ele saía de Ijuí, chegava a Porto Alegre para a agenda de jogos do Internacional/RS, passava uma semana treinando no clube e voltava para casa. Foi assim desde 2021, quando entrou na base colorada aos 8 anos, até o início de 2025, quando a família trocou o interior pela capital.

Hoje, aos 13 anos, ele é o camisa 9 do sub-13 do Inter. É um centroavante canhoto, com 1,76 m e 72 kg. Nesta temporada já foi relacionado para o sub-14 e disputou pelo clube a Liga Serrana sub-15. Em 2025 foi campeão gaúcho jogando numa categoria acima da sua.

O caminho até o clube começou com o captador Luan, que viu alguns jogos na região de Ijuí e fez o convite. A chegada não teve período de espera. Depois do primeiro treino, Miguel foi relacionado para a partida do dia seguinte, recebeu a camisa 9 e começou como titular.

Miguel tem histórico de títulos pelo Colorado. Foto: Mz Artys Agency

Atleta do Inter, rotina em Ijuí

O arranjo dos anos seguintes era pouco comum. Miguel estava vinculado à base do Inter e jogava as partidas e os campeonatos do clube, mas só treinava lá de vez em quando. A preparação do dia a dia continuava em Ijuí. O desafio era chegar a Porto Alegre no mesmo nível de quem treinava todos os dias no clube.

“Essa rotina de viagens exigia muita disciplina nos treinos para que, ao ser chamado para a apresentação, estivesse apto a competir como os demais colegas que já residiam e treinavam diariamente no clube”, explica. A escola entrava na mesma conta. Além das aulas regulares, ele fazia reforço nas matérias mais importantes para manter o desempenho.

Boa parte da formação aconteceu em duas escolas de Ijuí. Na ACF, Miguel jogou futsal dos 5 aos 11 anos, levado por um professor conhecido da família. Foi lá que recebeu as primeiras orientações sobre fazer parte de uma equipe.

A segunda escola veio por causa da pandemia. Em 2020, com as restrições no auge, o pai procurou um treino ao ar livre para reduzir o risco de contaminação. Encontrou a Futuro Talento, onde professores conhecidos no município passaram a dar treinos individuais e com proteção. Ali Miguel trocou a quadra pelo gramado. Ficou até 2024, disputou torneios regionais e estaduais e venceu várias competições.

O pai, Juliano Strohhecker, está por trás de muitas dessas decisões. Miguel diz que ele foi a pessoa mais importante dos primeiros anos, o maior incentivador e quem lhe ensinou disciplina. Como o filho ainda não tem empresário formalizado, é o pai quem cuida das conversas sobre a carreira e pede a ele que se ocupe só do futebol.

A mudança para Porto Alegre, no início de 2025, foi planejada pela família, que saiu do interior para abrir caminho ao sonho de Miguel. “Mudou tudo, novos amigos, nova escola, nova forma de treinar, outra rotina”, resume.

Atacante nasceu no interior e viajava toda semana para treinar no clube. Foto: Mz Artys Agency

O dia agora começa às 6h45. Das 7h30 às 11h45 ele está na escola, onde cursa o 8º ano. Na saída, o ônibus do Inter já espera para levá-lo ao clube. Almoça ao meio-dia, treina normalmente das 13h às 15h e volta para casa para fazer os deveres. Cerca de três vezes por semana, dependendo da agenda de jogos, ainda faz trabalhos complementares técnicos, físicos e psicológicos. Dorme entre 21h e 22h e segue a orientação nutricional do clube, longe de alimentos processados e refrigerante. Segundo ele, o preço dessa agenda é ficar longe dos avós, tios e primos e ter uma rotina com pouca folga.

A 9 de frente para o jogo

Miguel é um centroavante que finaliza com as duas pernas, conduz a bola, arranca, protege, gira com facilidade e cabeceia bem. O que ele mais gosta, porém, é de sair da área para buscar o jogo e criar de frente.

O lance que ele aponta como o mais marcante da temporada mostra essa leitura. Na semifinal do campeonato de São Ludgero, contra o Vila Nova/GO, o time estava com a confiança baixa. “Fiz a leitura do jogo e percebi que a vitória poderia passar por mim”, conta.

Miguel recuou até o meio-campo, enfiou a bola para o ponta e recebeu de volta. Depois cortou para o meio e chutou de fora da área com a perna direita, a não dominante. O gol garantiu a classificação e rendeu a ele o prêmio de craque da partida, com direito a entrevista. Na decisão, o time terminou com o vice.

Os números ajudam a medir o peso dele no ataque, embora o próprio Miguel admita que é difícil contar tudo. Em 2025, fechou a temporada com cerca de 50 gols. Em 2026, já passou dos 32 nas competições de que tem registro. Neste ano disputa a Noligafi, a BG Prime e o Gauchão e foi relacionado em todos os jogos do Inter na categoria.

As conquistas começam em 2022, com a Noligafi e a Copa Americano. Em 2024 vieram a Eifipan Primavera e a BG Prime. Em 2025 foram a New Cup, o Gauchão, a BG Prime de novo e a MGF Cup, onde também foi artilheiro.

No Sulbrasileiro, foi eleito para a seleção do torneio como melhor centroavante em 2023 e em 2025. Em 2026, ficou com o vice na Copa Internacional Safurfa Marau e em São Ludgero.

Entre todos esses títulos, o que ele considera mais importante é a BG Prime de 2025, pelo nível dos adversários e porque também foi eleito o melhor centroavante da competição.

Miguel mira título do Gauchão Sub-13 pelo Inter. Foto: Evertonsilveira1998

Antes de cada jogo, Miguel segue um ritual de concentração que aprendeu em cursos de autoconhecimento feitos com os pais. Medita, reza, repete frases de autoafirmação e visualiza a partida. “Percebi que isso me conecta mais com o jogo e fico mais intenso para jogar”, diz. Depois do apito final, analisa o próprio desempenho para ver o que poderia ter feito diferente.

Dessa autocrítica sai a lista do que ainda falta. Ele quer chegar ao ponto em que não faça diferença o pé usado para finalizar. Também quer bater falta com os dois pés, ganhar impulsão para o cabeceio e conseguir jogar em várias funções do ataque.

As referências vão na mesma direção. Ele assiste a Harry Kane e Haaland para estudar o posicionamento dentro e fora da área, a finalização e a leitura de jogo. Kane divide com Michael Olise o posto de ídolo do momento.

Para o resto da temporada, os objetivos são títulos, reconhecimento individual e novas chances nas categorias acima. A Copa Umbro é o alvo declarado. Daqui a cinco anos, ele se imagina no futebol profissional e na Seleção Brasileira. A ideia por trás dessa ambição vem de casa. “Minha mãe diz que não tenho limite e o custo de sonhar grande ou pequeno é o mesmo”, conta.

O menino que viajava 400 km para vestir a camisa 9 do Inter agora pega o ônibus do clube na saída da escola. A distância que falta percorrer é a da lista que ele mesmo fez, pé por pé, entre o que já sabe fazer e o que ainda quer fazer.

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