ARTIGO – Ser mãe de atleta é uma rotina que a sociedade ainda não aprendeu a respeitar

POR NAYARA SOEIRO*
Existe uma cena que se repete em todo o Brasil, toda semana, sem que quase ninguém pare para observar com atenção. Uma mãe acorda antes de todo mundo. Prepara o café, verifica a mochila, checa se o uniforme está limpo, lembra do atestado médico que vence esse mês, calcula se o dinheiro do transporte fecha até sexta, e ainda consegue chegar no trabalho no horário. Essa mãe não está em nenhuma reportagem. Não tem patrocinador nem assessoria de imprensa. Ela é a base silenciosa de uma história que, quando dá certo, todo mundo quer contar. E quando não dá, ninguém pergunta o que aconteceu com ela.
Acompanhar uma criança ou adolescente que joga futebol não é uma escolha de tempo livre. É mais uma tarefa uma que se instala dentro da rotina já cheia de uma família brasileira comum. É a consulta médica marcada para encaixar entre o turno do trabalho e o treino da tarde. É a refeição pensada com o que tem na geladeira, mas com o cuidado de quem sabe que aquele filho vai correr por noventa minutos.
É a escola que precisa entender a ausência numa prova porque houve um jogo fora da cidade. É o transporte que falhou, o ônibus que não veio, a carona pedida para uma mãe que você mal conhece porque a situação não espera.
Tudo isso é real. Tudo isso acontece antes de qualquer conversa sobre talento ou potencial.
O que a sociedade raramente reconhece é que essa mãe está gerindo uma logística de alta complexidade sem nenhuma formação para isso, sem apoio institucional e, na maior parte das vezes, sem nenhum parceiro que divida o peso de forma equivalente. O futebol ainda é um ambiente estruturado para receber o atleta, não a família.
O clube tem horário para treino, mas não tem estrutura para acolher a mãe que não sabe como lidar com a lesão do filho, que nunca recebeu uma orientação sobre alimentação esportiva adaptada à renda que ela tem, que não entende por que o filho voltou do treino calado e distante. Essas lacunas não são pequenos detalhes. São os pontos onde as histórias começam a desmoronar.

Há também uma dimensão emocional que precisa ser dita sem romantismo. Ser mãe de um filho que sonha é bonito e é pesado ao mesmo tempo. Existe a pressão de não frustrar. A culpa quando falta dinheiro para pagar a mensalidade de uma escolinha melhor. O medo silencioso de que o filho se machuque e o sonho acabe de uma vez.
A dificuldade de separar o que é apoio genuíno do que é projeção. Essas são questões que vivem dentro de casa, que não aparecem nas conversas do campo e que, se não forem tratadas com honestidade, criam um peso invisível que a família inteira carrega sem conseguir nomear. Ninguém prepara a mãe para administrar a expectativa. E a expectativa, mal gerida, machuca antes de qualquer lesão física.
Dentro do Portal Brazuca, temos observado que os momentos mais transformadores nos nossos eventos não acontecem quando falamos de futebol. Acontecem quando abrimos espaço para as mães se reconhecerem umas nas outras. Quando uma mãe de São Paulo percebe que vive exatamente o que uma mãe do interior do Nordeste também está vivendo.
Quando o tema deixa de ser o filho e passa a ser ela. A alimentação possível com o orçamento que existe. O sono que ninguém dorme direito porque a rotina não permite. A escola que precisa de um diálogo que ninguém sabe muito bem como começar. Esses temas não têm nada de extraordinário. São a vida. E é exatamente por isso que precisam ser tratados com seriedade.
O papel do Portal Brazuca nessa conversa não é o de dar respostas prontas. É o de criar um espaço onde essas perguntas possam ser feitas sem julgamento. Onde a mãe que nunca soube ao certo o que o filho deve comer antes de um jogo possa aprender sem vergonha.
Onde a família que usa transporte público para chegar ao treino encontre o mesmo respeito que qualquer outra. Onde ser mãe de atleta seja reconhecido como o que de fato é: uma forma de dedicação que vai muito além do futebol, que atravessa classe social, região geográfica e condição de vida, e que merece atenção, escuta e estrutura. Essa mãe existe em todo o Brasil. E ela precisa saber que não está sozinha nisso.
*Nayara Soeiro é mãe de três filhos, sendo um atleta. Ela tamtambém é sócia e diretora de Novos Negócios do Portal Brazuca.




