João Gabriel fundou Atlético Ubaí durante depressão e hoje projeta passos largos no futebol mineiro

Havia uma quadra de escola, uma bola e um apito. Mais nada. Sem estrutura, sem dinheiro, sem apoio e sem nenhum conhecimento técnico de como se formava um atleta. João Gabriel tinha 19 anos, estava saindo de uma depressão e precisava de algo para se agarrar. O futebol foi esse aliado.
O Atlético Ubaí existe há nove anos. É o único projeto registrado e estruturado de futebol de base da cidade de Ubaí, município de pouco mais de 18 mil habitantes no norte de Minas Gerais.
“O que começou apenas como uma distração se tornou sonho, objetivo e realização”, resume João Gabriel, fundador e único profissional do projeto, que hoje atende categorias do sub-11 ao sub-20, treina todos os dias da semana e passou a revelar talentos ao futebol nacional.
O início foi mais difícil do que qualquer planejamento poderia prever. Além da falta de estrutura, passou por dificuldades na relação com o governo municipal que, à época, chegou ao ponto de impedir o uso de quadras públicas. João Gabriel ficou sem local para treinar, sem dinheiro e sem ninguém ao lado. Desistir era o caminho mais fácil. Não para ele.

“Desistir nunca foi uma opção”, afirma, com a convicção de quem repete isso para si mesmo há quase uma década.
O primeiro sinal de que a coisa estava funcionando veio nos amistosos contra escolinhas de futsal das cidades vizinhas, quando o projeto ainda operava na modalidade indoor. Os resultados eram quase sempre favoráveis ao Atlético Ubaí. Uma semente havia sido plantada.
Com o tempo, o projeto migrou para o futebol de campo, ganhou estrutura em materiais esportivos e uniformes, e começou a competir fora de Ubaí. A projeção para o cenário estadual veio com participações no Campeonato Mineiro IMEF, onde a equipe chegou a ser vice-campeã em duas categorias, perdendo apenas para Funorte e North, equipes federadas do campeonato mineiro profissional.
Na Copa Brasileirinho Internacional, em Belo Horizonte, o Atlético avançou de um grupo que incluía o Cruzeiro/MG entre as equipes profissionais participantes.
Dois anos depois de tudo isso, João Gabriel foi eleito pelo Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – IFNMG o Melhor Treinador de Categorias de Base do Norte de Minas Gerais em 2022 e repetiu o feito em 2024. O reconhecimento, que chegou para um projeto de cidade pequena num universo historicamente favorável aos grandes centros, tem para ele um significado que vai além do troféu.
“Foi algo muito marcante, principalmente por o nosso projeto ser de cidade pequena, o que sempre carrega um preconceito. Mas foi visto como Deus vem abençoando o sonho iniciado há 9 anos”, conta o treinador, que possui a Licença C da CBF Academy e está cursando a Licença B.
A formação que ele oferece vai além do futebol. João Gabriel leva ao grupo palestras com policiais, psicólogos, padres e ex-atletas de sucesso. A maioria dos atletas que chegam ao Atlético Ubaí vem de famílias de baixa renda, o que torna o processo ainda mais desafiador, mas também mais necessário. “O exemplo é o principal. Eu busco seguir os mesmos princípios para que os atletas possam me ter como espelho”, explica.
O caso mais recente que ilustra o potencial do projeto é o de Thales, atleta revelado pelo Atlético Ubaí que hoje disputa o Campeonato Paulista pelo Jabaquara, já tendo recebido sondagens de grandes clubes do país.
Para João Gabriel, esse tipo de resultado é a prova de que o trabalho funciona, mas também escancarou uma limitação real do projeto: as famílias que não têm condições de bancar a mudança do filho para um clube de fora acabam perdendo a oportunidade. Não existe parceria financeira para custear esse processo.

“Ainda nada no pouco. Mas se confiarem recursos e apoio, poderemos fazer do Atlético um projeto que andará com as próprias pernas”, afirma.
O projeto se tornou associação com CNPJ ativo em 2023 e conta com apoio da prefeitura municipal desde 2021. Patrocinadores pontuais ajudam com os gastos mais imediatos. O sonho de cinco anos é direto: um time federado na Federação Mineira de Futebol, disputando o campeonato mineiro de base em todas as categorias.
E se um clube profissional bater à porta para contratar o treinador? João Gabriel não fecharia a porta. “É um sonho que tenho, pois também tenho que mostrar o meu trabalho e a minha capacidade. Isso não faria o Atlético Ubaí acabar. Eu escolheria a dedo uma pessoa para ser meu sucessor.”
Mas por enquanto, o projeto é ele. E ele é o projeto. Uma quadra, uma bola, um apito e nove anos de teimosia que o Norte de Minas Gerais começou a reconhecer.






